Câmara em Pauta NY: A cultura da inclusão e a lente da exclusão
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NY: A cultura da inclusão e a lente da exclusão

Ana Alakija

De Boston – Entediada com as narrativas midiáticas e o discurso disputativo sobre quem é herói e quem é vilão na guerra entre a Rússia-Ucrânia protagonizando ou demonizando os Estados Unidos, resolvi escrever hoje sobre alguns aspectos do mundo documental no cinema.

Especialmente quero comentar sobre o documentário “Diários de Andy Warhol” (The Andy Warhol Diaries, no original ) dirigido por Andrew Rossi. Assisti ontem, recomendado por minha amiga e editora geral do Câmara em Pauta, Simone de Moraes.

A minissérie debutante de seis episódios exibida pela Netflix é impactante. São seis episódios totalizando mais ou menos 6 horas de projeção. O script foca principalmente nos conflitos existenciais e sentimentos de solidão do gênio da arte moderna estadunidense expressos em seus diários. Os diários foram editados pela jornalista-escritora Pat Hackett com o consentimento de Warhol e publicados post-mortem.

Warhol teve três dos seus grandes amores mortos em condições traumáticas: o designer de interiores Jed Johnson, aos 47 anos de idade (em acidente de avião, anos após a morte de Andy); o vice-presidente dos estúdios de cinema Paramount Jon Gould aos 33 (por AIDS); e o ícone do movimento neo-expressionista de arte dos anos 80 Jean-Michel Basquiat, aos 27, um ano após Andy (por overdose de heroina).

Representada no documentário, a vida do artista plástico, produtor-diretor de filmes, programas de televisão e escritor ícone da cultura pop norte-americana que eclodiu nos Estados Unidos nos anos 60 (especialmente em NY), faz emergir temas tabus e revolucionários na sociedade ocidental da época como homossexualismo, AIDS, racismo e a própria liberalidade sexual.

Andy Warhol (Pittsburgh, 1928-1987), cujo perfil se encaixa com perfeição no descritivo da canção de Nat King Cole, Nature Boy (tema principal da trilha sonora do documentário) nasceu nos Estados Unidos para uma família de origem Austríaca-Húngara. Ele se formou em artes comerciais pelo Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh. Foi pioneiro na criação e associação de afrescos e fotografia à técnica de silkscreen, produzindo efeitos que qualquer simples mortal sem muito conhecimento de arte pode conseguir hoje através do Adobe Photoshop e recursos de pré-impressão do PDF.

O documentário exibe o trânsito de Warhol, uma figura esdrúxula no meio de famosos da época que transformou ele mesmo em uma celebridade retratando superstares em imensos painéis como Marilyn Monroe, Elvis Presley, Marlon Brando, Elizabeth Taylor, Muhammad Ali, Jackie Onassis, Mick Jagger…  Mas  Warhol era também accessível a pessoas de todos os status quo (meu atual companheiro, por exemplo, então um exilado e ex-refugiado do nazismo, foi apresentado a Warhol em um dos pubs que ele frequentava). Warhol também explorou temas comerciais (grandes esculturas de Brillo Box, Kellog’s Cornflakes Box…) e espiritualidade ( recriação da “Última Ceia de Jesus Cristo”, na exposição que fez em Milão).

A abordagem do racismo no documentário é enfática. Ela se faz através das expressões (negativas) que o próprio Warhol usou em seu diário para se referir a Jean-Michel Basquiat ––Basquiat era Afro-Americano–– e da incompreensão da imprensa mainstream ao trabalho dele, que o qualificou como “mascote” de Warhol, o que afetou a relação dos dois artistas para sempre.

Basquiat nasceu no bairro de Brooklyn, em NY, para uma família negra de classe média, de origem porto-riquenha por parte da mãe e portoprincense por parte de pai. Tinha nível médio de educação e se tornou um self-made designer através do grafismo de rua. Apesar de ser chamado pela crítica de “vazio”, o ex-artista de rua adicionou um aspecto mais pop (rap  e punk) aos trabalhos de Warhol. A exemplo do uso da imagem de produtos populares, como a sopa Campbell e a Coca-Cola– alimento e bebida servidos na época tanto na mesa do presidente da República, quanto consumidos também por um morador de rua.

Basquiat  também expressou que o negro não estava representado na arte moderna norte-americana––qualquer coincidência com a nossa brasileira Semana de Arte Moderna em 1922 é mera semelhança (tem ironia nessa frase)–– e culpou Warhol de certa forma. A simples aparição de algumas personalidades e celebridades negras nas obras de Warhol e pousar ao lado de Miles Davis para ele eram insuficientes.

Assim, o artista entregou ele mesmo vários trabalhos com  temas da história Afro-Americana. Uma pintura de Basquiat de 1982 representando uma caveira preta com listras vermelhas e amarelas, foi vendida em um leilão em NY, em 2017, por US$ 110,5 milhões, tornando-se uma das pinturas mais caras até então já compradas.

Se o propósito do documentário foi chamar a atenção para New York como o centro para onde se aglutinou a cultura da aceitação do ser humano com todas as suas derivações do que a sociedade terráquea determinou não ser normalidade, ele de alguma forma conseguiu o objetivo.

Mas a série deixa também uma lacuna enorme, por não explorar a não aceitação do feminismo. A “mulher” que tentou matar Warhol e dois dos seus parceiros de trabalho no estúdio de Wahrol, em 1968, era a jornalista-escritora Valerie Solanas. Ela era a autora do que veio depois a ser o famoso SCUM Manifest (O Manifesto da Escuma), que estruturou o pensamento radical feminista ocidental  então advindo.

Solanas at The Village Voice offices in 1967

Solanas era formada em psicologia pela University of Maryland. Possivelmente a sua desordem emocional e mental estava fundamentada em uma infância difícil como vitima de abuso sexual do próprio pai e avô e teria sido agravada pelas limitações a seguir que a sociedade impôs a ela por ser mulher.

O próprio Warhol ofereceu a ela $25 e o emprego de datilógrafa em seu estúdio, após dizer que perdeu o roteiro de uma peça  de sua autoria  (“Up your ass” no original, uma frase comum na época usada por homens em prostibulos). Warhol também parece ter se inspirado  na vida de Solanas para produzir as suas ficções cinematográficas e deu a ela papeis pequenos para as suas produções. Mas nada disso é abordado no filme ou nos diários de Warhol.

O diretor-roteirista Andrew Rossi é um newcomer no mundo do cinema, onde dirigiu apenas dois filmes (ambos na minha lista para assistir): Page One: Inside the New York Times (2011) and The First Monday in May (2016). Enquanto número de filmes dirigidos não é critério para julgamento de qualidade de trabalho, o desígnio de Rossi talvez fosse o mesmo de Warhol, explorar apenas o universo masculino.

 

 Ana Alakija é jornalista com mestrado em História pela Salem State University (EUA)

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