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Porque a esquerda acabou

Publicado em: 01/03/2024

CÉSAR FONSECA – Está no ar a discussão sobre se a esquerda, realmente, acabou ou não, no reinado do neoliberalismo que produz a expansão do populismo.

Os economistas conservadores atacam o populismo como fruto da fraqueza dos partidos, que se transformam em plataformas de grupos que os manipulam pelo poder do dinheiro, sem nenhum compromisso com interesses sociais, mas, tão somente, econômicos e financeiros; acertam no diagnóstico, mas fogem das propostas de solução, do ponto de vista ideológico, porque, claramente, estão comprometidos com o capital, não com o trabalho.

Os trabalhadores, no cenário do capitalismo, que não tem mais como atender demanda por empregos, substituídos pela tecnologia e inteligência artificial, em grande escala, não têm mais a defendê-los sindicatos fortes e engajados na luta de classe, enquanto os salários caem e a pobreza cresce, incontrolavelmente, levando o capital à especulação para escapulir do holocausto dos consumidores.

O poder neoliberal destruiu a última chance de aglutinação dos trabalhadores por meio do sindicato ao eliminar o imposto sindical, na era bolsonarista fascista.

Não há motivação política dos dirigentes das agremiações, se não têm recursos para a sua organização em bases sustentáveis, como havia antes com existência do imposto a serviço do trabalho como forma de organizar luta contra o capital, nos marcos do capitalismo.

Por isso, a classe trabalhadora, sem discussão política, que se dá nas representações classistas, dispersou-se, completamente, pelo poder neoliberal, fortalecido para colocar a sua ordem em prática: diminuir crescentemente os salários sem precisar enfrentar greves.

Estas, por enquanto, persistem, sem vigor, no serviço público, mas os neoliberais cuidam de eliminá-las com a reforma administrativa em nome do enxugamento do Estado, da redução do custo Brasil, da eficiência e redução da burocracia etc, mediante ajustes fiscais e monetários conduzidos por Banco Central Independente em sintonia com parlamentarismo neoliberal.

A dispersão dos trabalhadores, sem chances efetivas de organização consistente, contribui para alienação da categoria diante do capital que a explora, graças às legislação que lhe favorece, conforme determinou a reforma trabalhista aprovada no Congresso sob domínio bolsonarista fascista.

 

CINISMO CONCILIADOR

 

A proposição do governo para enfrentar o problema da uberização do trabalho, que significa supressão de, praticamente, todos os direitos trabalhistas, é uma acomodação cínica aos interesses do capital frente aos do trabalho, que não pode se organizar por falta de proteção contra impunidade da demissão de trabalhadores, sujeitos ao livre mercado.

Evidencia-se, nesse compasso da deterioração das relações capital-trabalho, o óbvio, do ponto de vista dos trabalhadores: seu revigoramento se torna impossível nos marcos do capitalismo, sabendo que as leis decorrentes das reformas trabalhistas somente favorecem o capital, amplamente protegido pelo Estado.

O maior inimigo do trabalho, com as reformas neoliberais trabalhistas, virou o próprio Estado dominado pelo capital.

Rasgou-se os resquícios de uma consciência culpada de esquerda liberal, que insistia em enganar-se a si mesma, no sentido de entender o Estado como fator de equilíbrio entre as classes sociais em conflito e não como de desagregação entre elas, visto que como o óbvio: o Estado é capital.

A lição, para os líderes sindicais, no ambiente do neoliberalismo, da financeirização econômica global, no qual não podem mais contar com o imposto sindical, é mudar o discurso: o capitalismo não protege os trabalhadores, sendo necessário sua substituição pelo socialismo.

Os trabalhadores, politicamente organizados, conduzidos por partidos que são frutos dessa organização laboral, têm, no plano democrático, que conquistar o Estado e submeter o capital ao trabalho.

É, simplesmente, o que dizem os teóricos do socialismo Marx e Lenin, com atualidade cristalina, exposta pelo neoliberalismo.

Reverter a ditadura do capital em ditadura do trabalho, do ponto de vista da práxis, é o trabalho a ser feito pela esquerda, para livrar trabalhadores da ditadura capitalista que se transmuda em democracia liberal.

Por que a esquerda, segundo o sociólogo marxista, Wladimir Safatle, acabou?

Simplesmente, porque busca o impossível: conciliar trabalho com o capital, sem garantia legal.

É a faca afiada contra o pescoço.

O resultado dessa estratégia equivocada é o acúmulo de derrotas históricas que, no ambiente da destruição das garantias trabalhistas, levam os trabalhadores às depressões sistemáticas e ao espírito de acomodação, onde viceja, amplamente, o populismo manipulado pelo Estado serviçal do capital.

No poder, a esquerda, sem ter por fim o objetivo de substituir capita pelo trabalho, na luta política, obrigada a dormir com o inimigo, por meio de conciliações sistemáticas, vai se desfigurando, transformando-se em centro político que acaba levando-a à direita, o berço do populismo capitalista sob o qual se encontra totalmente dominada.

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