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Pistas para decifrar os irmãos Batista: A origem em Goiás.

Postado por Simone de Moraes

28/05/2017 15:38


Crédito: Reprodução

Por Fabio Victor
Folha de S. Paulo

Bem antes de incendiarem o país acusando políticos de cúmplices em seus esquemas de corrupção, os irmãos Joesley e Wesley Batista alardeavam que a JBS tinha como diferencial corporativo o sistema de gestão Frog –contração da expressão em inglês “from Goiás”.

Exibiam orgulho de suas origens, mas com um verniz gringo sob medida para a internacionalização da empresa. Também chamado de “jeitão JBS”, o modelo, em suma, abolia símbolos clássicos do universo executivo, como gravatas, e valorizava o trabalho árduo e a experiência prática em detrimento da acadêmica.

Com a delação premiada feita pelos irmãos, o jeitão voltou à tona, escancarado em gravações e depoimentos que revelam modos e falares rústicos. Alvejados, os políticos passaram, não sem preconceito, a desqualificar os delatores por sua caipirice e falta de polidez -o presidente Michel Temer definiu Joesley e o ex-executivo da JBS Ricardo Saud como “figuras pífias” e “de pouca formação”.

Nas cidades onde nasceu a empresa e se formou o tal sistema Frog, parentes e amigos estão assombrados e desconfiados com as notícias. Fazem uma defesa enfática da honestidade e capacidade de trabalho da família.

Há também entre os conterrâneos, especialmente entre aqueles que não conheceram os Batistas, quem engrosse o coro nacional de críticas à desfaçatez dos irmãos e às condições negociadas para a delação, sem prisão nem tornozeleira e com autorização para viagens.

Começa em Anápolis a história do Império JBS. A sigla reúne as iniciais do seu fundador, José Batista Sobrinho, mineiro cuja família mudou-se nos anos 1940 para a cidade, a 55 km de Goiânia e hoje com 370 mil habitantes. Ali, seu Zé Mineiro, como ficaria conhecido, abriu em 1953 seu primeiro açougue, a Casa de Carnes Mineira.

Em Anápolis nasceu o primogênito de seus seis filhos com Flora Mendonça, José Batista Júnior, que mais tarde viria a ser conhecido como Júnior Friboi. As filhas mulheres se chamam Valére, Vanessa e Vivianne.

Atraído por isenções fiscais dadas por Juscelino Kubitschek aos pioneiros de Brasília, em 1957 Zé Mineiro passou a vender carne nos canteiros de obras da futura capital. “Não tinha condição de montar abatedouro, então eu abatia [o gado] no cerrado, no mato”, contou o fundador numa entrevista em 2012. Hoje ele tem 84 anos e, como a maioria dos filhos, vive em São Paulo -ou vivia, até a delação da JBS levar os Batistas a fecharem-se em copas.

Em 1969, a família mudou-se para outra cidade goiana, Formosa, onde nasceram Wesley (1971) e Joesley (1972) e onde em 1970 montou seu primeiro frigorífico, que viria a se chamar Friboi.

Em Formosa, município de 115 mil habitantes a 75 km de Brasília que hoje acolhe a soja, ainda vivem vários Batistas –tias, primos e primas de Wesley e Joesley– e amigos da família. Lá, portanto, é possível encontrar chaves para se entender a ascensão do império JBS.

Um dos raros parentes que se dispuseram a dar entrevista foi o dentista Wilson Marques, primo em primeiro grau de Wesley e Joesley (a mãe dele é irmã de Zé Mineiro).

“O que temos para falar é que é um povo honesto e trabalhador, que mal dorme de tanto trabalhar, e que está nessa situação”, afirmou Wilson, vestido de branco na recepção de seu consultório no centro de Formosa.

“Só fizeram trabalhar, trabalhar e trabalhar, não são como essa cambada de vagabundos”, disse, apontando para a TV, que transmitia as manifestações contra Temer na última quarta (24) em Brasília.

“Se dependesse de mim, não tinha nenhuma bala de borracha, só bala de verdade”, acrescentou o dentista, que também é pecuarista.

Wilson contou ter convivido mais com o primogênito dos Batistas que com os outros irmãos. “Não tem quem goste mais do Júnior do que eu. O cara é ‘pedra 90’. É bom, direito e justo.” O tio Zé Mineiro, que volta à cidade para aniversários ou enterros de parentes, “deve ser o cara mais indignado com isso tudo”.

E Joesley e Wesley? “Com esses eu não convivi muito.”

O jeito seco de tratar os dois primos não impede Wilson de defender a atitude deles. “Para fazer o que fizeram, devem ter sofrido pressão muito forte, só não sei de quem. Tinham de deixá-los trabalhar, ganhar dinheiro e botar o país para a frente.”

É uma postura semelhante à do comerciante João Neto, 58, que conviveu com os Batistas e constrói um pequeno posto de gasolina num prédio vizinho ao primeiro escritório da Friboi em Formosa, por sua vez colado à primeira casa da família na cidade.

“[Com a delação,] eles fizeram um bem para a sociedade. Quem sabia que Aécio e Temer eram propineiros? O gesto deles mostrou que estamos sendo enganados pela classe política. E fizeram aquilo porque já estavam cansados de dar propina”, disse.

“Pergunte na cidade se seu Zé Mineiro já deixou de pagar algum gado, se já deu tombo em alguém. Em ninguém.”

João descreve a infância dos irmãos Batista como dura. “Não tiveram regalia de criança, jogar bola, tomar banho de poço –só trabalhavam.”

Nenhum filho concluiu o 2º grau (hoje ensino médio).

Funcionário da Friboi por 25 anos, de 1971 a 1996, Vigilato Francisco Neto, 63, começou na empresa como office boy e chegou a gerente. Tornou-se amigo da família.

Hoje dono de um açougue de Formosa, ele enriquece a narrativa sobre a formação dos filhos de Zé Mineiro. “Com 13 anos, Júnior já comprava gado em Arinos (MG) e levava em comitiva até Posse [Goiás, onde os Batistas até hoje têm fazenda]. Com 14, já dirigia caminhão gaiola.”

E distingue os talentos dos três irmãos: “Júnior é o comerciante; Wesley, o do frigorífico, da parte industrial; Joesley, o da parte econômica -é um crânio nas finanças”.

Júnior presidiu a Friboi até 2005 e a tornou a maior empresa frigorífica do país. Saiu para tocar seus próprios negócios. Em 2014, com o apoio de Temer, tentou ser candidato ao governo de Goiás pelo PMDB, mas desistiu da disputa após ser atropelado pelo cacique local Iris Rezende. Júnior apoiaria Marconi Perillo (PSDB), que acabou reeleito.

O Ministério Público goiano investiga a responsabilidade de Perillo no perdão de uma dívida da JBS com o governo do Estado, de pelo menos R$ 1,3 bilhão em ICMS. O governo de Goiás afirma que o programa de regularização de débitos tributários é benéfico para o Estado e teve a adesão de outras 968 empresa além da JBS.

Em 2007, já tocada por Wesley e Joesley, a Friboi mudou o nome para JBS. Sob o comando dos dois irmãos, o grupo passou a receber os bilhões do BNDES –via empréstimos e participação acionária– que lhe permitiram comprar empresas aqui e alhures e se tornar o maior produtor de carne do mundo.

O ex-funcionário Vigilato guiou a reportagem nas ruínas do primeiro frigorífico da Friboi, vendido pelos Batistas nos anos 80 e desativado pouco antes dos 90.

“Seu Zé é fantástico como patrão, como pai, como amigo. E todos os filhos puxaram a ele”, diz o ex-funcionário. E a corrupção de que participaram? “Normal. Porque no Brasil só funciona assim. Existe outra forma de você crescer no Brasil?”, questiona.

Tal boa vontade com os Batistas não se vê em Anápolis, berço da JBS, cidade industrial cuja feiura urbana só parece ser quebrada por um agradável parque, o Ipiranga. Dos poucos parentes que restam, os que toparam falar pediram anonimato e reclamaram de como Joesley e Wesley mancharam o nome dos pais.

Dono de uma fábrica de ração localizada num antigo abatedouro utilizado por Zé Mineiro, Marcelo Macedo Tavares conta que os Batistas sempre foram cumpridores de acordos, “mas sempre tinham um esquema para manter o monopólio”. Tavares comprava osso para fazer ração. “Eles [os Batistas] vinham de Brasília me entregar osso aqui [em Anápolis], para não permitir que eu fosse lá, onde os concorrentes queriam dar de graça [para atrair novos clientes]. Os concorrentes queriam ver o capeta, mas não queriam vê-los.”

Numa reunião no sindicato rural da cidade –formada às pressas a pedido da reportagem–, criadores de gado da velha guarda desfiaram memórias da família.

Para Zé Mineiro (e para o irmão dele Juverson, peça-chave no êxito do negócio da carne), todos tinham palavras e lembranças boas.

“Zé Mineiro e Juverson andavam grudados feito cano de garrucha. Eram gente bruta de boa. Cabeceira”, recorda o pecuarista Íris Rosa Silva, 71.

Com os irmãos-delatores o tom foi outro. “Esse meninos deram conta de acabar com a imagem que o pai deles levou anos para construir”, comentou Pedro Olímpio Neto, presidente da entidade.

A má reputação da JBS na cidade se deve em parte ao fechamento, em 2014, de um frigorífico de grande porte da empresa, com capacidade de abater mil bois por dia.

Próximo ao prédio fechado, no bairro pobre de Vila Fabril, periferia de Anápolis, um terreno da empresa abriga um campo de futebol que, segundo os moradores, era a única diversão da região até a JBS impedir o acesso. Está fechado e coberto pelo mato.

“Pegaram bilhões aqui para fazer o que fizeram, para montar empresas lá [no exterior] e fechar aqui. E ainda fecharam o campinho, único brinquedo do bairro”, queixou-se José Ramos, 78, que por 43 anos foi magarefe (profissional que mata e esfola o boi) no frigorífico -começou bem antes de os Batistas o comprarem. “Foram os piores patrões que tive.”

Na portaria do frigorífico fechado, os seguranças deram o telefone do gerente da JBS responsável pelo local, identificado como Leonardo. Procurado, ele disse que só cuidava da estrutura física do edifício e desligou o telefone na cara do repórter.

No berço da JBS e de Cachoeira, Meirelles é ‘orgulho’

Enquanto os irmãos Joesley e Wesley são personas non gratas na terra onde o pai deles criou o que viria a ser o império JBS, outro filho ilustre de Anápolis –o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles– é tido por locais como a personalidade que pode melhorar a reputação da cidade.

“Já temos [o contraventor Carlinhos] Cachoeira [nascido na cidade] e os Batistas. O Meirelles é o único orgulho que nos restou”, disse o presidente da Associação Comercial e Industrial de Anápolis, Anastacios Apolos Dagios.

“Nossa esperança toda é que venha uma eleição e o escolhido seja o Meirelles”, afirmou o presidente do Sindicato Rural de Anápolis, Pedro Olímpio Neto. “Meirelles é nosso orgulho e nossa esperança”, acrescentou o pecuarista Emival Duarte.

O nome do ministro chegou a ser citado como um dos cotados para suceder Temer em caso da queda do presidente e escolha do substituto em eleição indireta –mas a hipótese é pouco provável.

Um dos motivos é o fato de Meirelles ter ocupado posições de destaque no Grupo J&F, holding que controla a JBS, durante quatro anos, de 2012 a 2016. O ministro diz que suas funções eram consultivas e que não participou da gestão nem tinha acesso aos dados internos da empresa. E afirma que os laços regionais nada tiveram a ver com a aproximação, pois só conheceu os Batistas em 2012, num almoço a convite deles na sede da empresa em São Paulo.

Nascido em Anápolis em 1945, Meirelles foi ainda bebê para Goiânia, onde morou até os 18 anos, quando mudou-se para São Paulo. Um dos vínculos que mantinha com a cidade natal era uma chácara no bairro de Vila Santa Rita comprada em 2002 a uma tia, viúva de Jonas Duarte (1908-1993) –que foi prefeito de Anápolis e governador interino de Goiás. Meirelles vendeu a área, de 5.600 m² (5,6 campos de futebol), em 2015, por R$ 6 milhões. No local deverá ser erguido um condomínio.

Numa casa simples ao lado da chácara vive a professora aposentada Margarida Maria Duarte, a Maggy, filha dos primeiros donos da chácara e prima em primeiro grau de Meirelles. “Quando derrubarem tudo vai ser muito triste, tem uma mata de mogno, tem pé de jaca, manga, banana. Quando acontecer, quero ir embora, não quero ouvir a motosserra.”

Questionada sobre a chance de o primo vir a ser presidente, disse: “Sei não, aí depende dele. Porque me disseram que ele está enrolado com essa JBS, né?”.

Empresários de Anápolis comentam à boca miúda que Meirelles teria participação na empresa local Masut, uma transportadora de combustíveis de propriedade de uma prima dele e do marido, que teve faturamento de cerca de R$ 1,2 bilhão em 2016. O ministro nega ter participação ou qualquer vínculo com a empresa, mesma informação dada pelos donos.

Folhapress
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