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Nem de ‘golpe’, nem de ‘namorado’: Dilma precisa ser respeitada como mulher

Postado por Luan

25/03/2016 20:06


Crédito: Reprodulão

Stephanie Ribeiro – O atual cenário político está chamando a atenção para diversas questões e condutas que estão se tornando públicas e atiçando cada vez mais a população brasileira.

Eu acredito que há uma dicotomia evidente entre quem compactua com um Golpe de Estado e quem pede manutenção da democracia e do governo eleito por 54,5 milhões de brasileiros. É irresponsabilidade civil e ética os rumos que a insatisfação das pessoas com o governo vem tomando.

A primeira manifestação contra o atual mandato de Dilma veio logo em março de 2015. A presidenta tomou posse em janeiro e três meses depois já julgaram ela incapaz e sua escolha como comandante do governo um “erro”. Junto com isso, os panelaços.

Dilma é uma mulher aparentemente exausta. Ela já foi torturada, teve um câncer, perdeu peso, está abatida e tem quase 70 anos. Como se não bastasse, ela é chamada diariamente de “vagabunda”, “prostituta”, “maldita”, “vaca”, entre outras coisas por grande parte da população brasileira.

Na abertura da Copa os gritos da torcida a mandavam a presidente “tomar no cu”. Nos últimos meses, foi aberto um processo de impeachment contra ela, mesmo sem provas e nenhum fato ilegal sobre sua conduta. Seu vice, Michel Temer, lançou uma carta pública criticando sua conduta e recentemente suas conversas telefônicas foram grampeadas e vazadas para a imprensa.

Independente das críticas que possam ser feitas ao PT, é surreal pensar em como o Brasil está agindo em relação à presidente, desde que ela chegou ao poder, em 2011.

Acredito que o partido, em si, não pode se vitimizar, mas Dilma tem sim todos os motivos para isso. Nem seria uma questão de vitimização, ela não merece isso. E nenhuma de nós merece algum tipo de misoginia.

A mídia e os cidadãos continuam enfatizando discursos de ódio. Inclusive, eles foram constantes nos debates das eleições de 2014. Especulações sobre sua sexualidade, por exemplo, são comuns em rodinhas de conversa. Alguns acreditam que “Dilma é ‘masculina’ demais para as pessoas”, então a taxam de lésbica.

Além de ser desrespeitoso colocar a sexualidade de uma autoridade em jogo, existe um problema enorme em uma sociedade que persegue uma presidente a chamando de “sapatão”, como se isso fosse uma ofensa ou xingamento. A justificativa que dão para isso é que, supostamente, ela não corresponde ao padrão de feminilidade imposto e aceito pela maioria (!).

As críticas ao seu peso também são recorrentes. Até mesmo em sua posse ela não se livrou dos comentários maldosos sobre seu corpo que chegaram até a pautar a grande imprensa. A gordofobia que sofreu resultou em uma dieta para perder peso. É muito cruel imaginar que uma mulher de quase 70 anos tenha feito uma dieta drástica para eliminar 15 quilos.

A presidenta continua dizendo que irá lutar pela manutenção de seu governo e pela democracia. Mas usar seu rosto em imagens obscenas, que insinuam estupros, só demonstram o quão o chamado “discurso de ódio” não fica só nas agressões de quem anda de vermelho pelas ruas. Só mostra o quão sórdidas são as atitudes daqueles que são contra o governo — ou contra a presidenta.

Algumas pessoas, inclusive, chegaram a dizer que ela “merecia uma agressão sexual”. O estupro é o ato mais cruel que uma mulher pode sofrer: é quando a sua escolha é vista de forma tão insignificante que ela pode ser posta de lado por quem se julga superior. Não se “deseja estupros” para ninguém, muito menos para uma figura eleita de forma justa, mesmo que essa escolha não agrade.

Para mim, fica claro que a irresponsabilidade das atitudes da direta brasileira não ficam só no Congresso e Judiciário. Recentemente, vi circular nas redes sociais uma matéria com o seguinte título: Uma pessoa para namorar Dilma.

“Seria mais fácil se Dilma começasse um namoro. Uma pessoa com quem compartilhasse a cama, que acariciasse o seu corpo, motivasse seu espírito, que lhe sussurrasse a verdade do estrago em que vive o Brasil. Desse modo, mobilizaria a sua alma feminina e ela passaria a sentir os brasileiros ao invés de os enfrentar.”

Agora, me digam, diante desses trechos estamos falando de erros políticos ou de machismo?

Para mim, a resposta é clara.

No Twitter uma das hashtag mais comentadas no último dia 22 de março foi: #lulaperdeuodedonaxotadadilma. Inclusive páginas de programas televisivos endossaram a # agressiva e machista:

Dilma é ofendida simplesmente por ser mulher. Argumentos como os usados pelo texto citado acima e a violência da hashtag só demonstram o sentimento de parte da população que, de forma ignorante e pouco lúcida, apoia a derrubada da presidenta com argumentos pífios.
Dilma não é bem vista porque é considerada uma “mulher de personalidade forte”. Este outro argumento é uma arma para desmoralizá-la que tem nome e é uma velha conhecida de todas nós mulheres: machismo. Por meio deste tipo de comportamento, estão tentando repetir, simbolicamente, o que já aconteceu na década de 50, no governo de Gétulio Vargas. Não o tiraram do poder pelo impeachment, mas sim, pelo suicídio.

A presidenta é simbolicamente importante para todas nós mulheres, e talvez uma das imagens mais históricas de seu governo tenha sido a posse ao lado de sua filha. Não havia homens, apenas duas mulheres desfilando a vitória.

Não acho que muito foi feito pelas pautas feministas, mas a violência que Dilma sofre por ser uma mulher ocupando um lugar tradicionalmente ocupado por homens, recai sobre mim também. E eu me solidarizo tanto com ela que costumo dizer que gostaria de abraçá-la. Faria isso apenas para que ela se sentisse confortável em algum momento.

Tudo o que está acontecendo é muito grave. Falo do cenário político como um todo, não só do início de um processo de impeachment. Eu tenho muita empatia para com a presidenta, com sua história e principalmente: sei separar as críticas que faço a sua gestão, com críticas pessoais que possam ferir não só a ela, mas todas as mulheres.

Na situação atual, talvez seja mais fácil vencer o golpe do que o machismo.

No BrasilPost Sthepaine Ribeiro : É estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC de Campinas. Ativista feminista negra, já teve textos seus postados no site da revista Marie Claire, Blogueiras Negras, Géledes, Confeitaria, Modefica, Imprensa Feminista, entre outros. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, que homenageou seu ativismo em prol das mulheres negras.

A ONU TAMBÉM SE PRONUNCIOU A RESPEITO.

LEIA NOTA

Nota pública sobre a situação política do Brasil

A ONU Mulheres observa com preocupação o contexto político brasileiro e apela publicamente à salvaguarda do Estado Democrático e de Direito.

Aos poderes da República, a ONU Mulheres conclama a preservação da legalidade, como condição máxima das garantias estabelecidas na Constituição Federal de 1988 e nos tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário.

À sociedade brasileira, a ONU Mulheres pede serenidade nas manifestações e não-violência frente aos debates públicos necessários para a condução democrática dos rumos políticos do país. O debate saudável entre opiniões divergentes deve ser parte intrínseca da prática cidadã em uma democracia.

Nos últimos 30 anos, a democracia e a estabilidade política no Brasil tornaram reais direitos humanos, individuais e coletivos. São, sobretudo, base para políticas públicas – entre elas as de eliminação das desigualdades de gênero e raça – determinantes para a construção de uma sociedade inclusiva e equitativa.

Como defensora dos direitos de mulheres e meninas no mundo, a ONU Mulheres condena todas as formas de violência contra as mulheres, inclusive a violência política de ordem sexista contra a Presidenta da República, Dilma Rousseff. Nenhuma discordância política ou protesto pode abrir margem e/ou justificar a banalização da violência de gênero – prática patriarcal e misógina que invalida a dignidade humana.
Que o legado da democracia brasileira, considerado referência no mundo e especialmente na América Latina e Caribe, seja guia para as soluções da crise política.

Nadine Gasman