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Niemeyer era monitorado pela ditadura, mas driblava os vigias

Postado por Simone de Moraes

22/07/2012 16:25


Crédito: Correio Braziliense

Reportagem da jornalista Helena Mader fala de documentos localizados no Arquivo Nacional, que mostram como os passos do arquiteto Oscar Niemeyer eram monitorados pelo regime, mas mesmo assim, ele conseguia driblar os percalços, e com talento e prestígio, continuava a trabalhar. De acordo com a reportagem, os militares vigiavam os passos de Niemeyer, que era acompanhado em suas “atividades subversivas” de perto por agentes da ditadura.

O arquiteto comunista desenhou o projeto do Quartel-General do Exército, no Setor Militar Urbano, que foi construído no pior momento dos “anos de chumbo” e na mesma época, projetou o Palácio do Jaburu, que foi ocupado por militares linha-dura do regime em Brasília. Para estes projetos, não houve atritos, porém a escultura do presidente Juscelino Kubitschek sobre uma estrutura curva de concreto no Memorial JK foi vista pelos militares como uma referência à foice, símbolo do Partido Comunista. “O objetivo foi contestar a ditadura existente, obrigando os mais reacionários a vê-lo (JK) todo dia, sorrindo, vitorioso sobre a cidade que Lucio inventou e ele construiu”, contou o arquiteto em suas memórias.

Leia os detalhes na íntegra da reportagem de Helena Mader para o Correio Braziliense, que reproduzimos abaixo.

Curvas de Niemeyer dobraram a ditadura

Por Helena Mader – O artista das formas ousadas e dos monumentos repletos de curvas nunca escondeu suas posições políticas. Oscar Niemeyer, de 104 anos, dedicou a vida a duas de suas grandes paixões: a arquitetura e o comunismo. De suas mãos saíram os traçados de projetos inovadores, como o complexo arquitetônico da Pampulha e os prédios monumentais de Brasília, mas também manifestos em defesa da democracia, cartas a amigos do antigo partidão e inúmeros artigos em que ele não hesitava em declarar: “Sou mesmo um comunista”. A sua ideologia sem disfarces era um incômodo e um motivo de constrangimento para os militares durante a ditadura. Mas o enorme prestígio internacional de Niemeyer livrou-o de prisões e de interrogatórios mais duros.

Documentos sigilosos do governo militar guardados no Arquivo Nacional comprovam que todas as atividades do arquiteto eram monitoradas e que as declarações, projetos e entrevistas de Oscar causavam enorme desconforto entre os integrantes da alta cúpula. O Estado de Minas teve acesso a arquivos liberados graças à Lei de Acesso à Informação que revelam a visão dos militares a respeito do arquiteto: Niemeyer era considerado um inimigo, com contato próximo aos “escalões avançados da subversão estudantil” e dono de um perigoso discurso antiamericanista. Além das posições políticas, nem mesmo o trabalho de Oscar escapou de questionamentos e acusações. Os documentos revelam uma grave acusação que teve repercussão entre os militares da época: um coronel se empenhou em divulgar o boato de que trabalhos de Niemeyer seriam um plágio dos projetos do arquiteto suíço Le Corbusier.

Um documento do Serviço Nacional de Informações (SNI) de 1973, cujo tema era Oscar Niemeyer, esmiuça em quatro páginas os passos do arquiteto. O ofício detalha principalmente entrevistas, encontros e suas atividades. “O presente documento de informações trata dos aspectos ideológicos das atividades de Oscar Niemeyer, não tendo sido focalizados os casos de natureza técnico-administrativa ligados a Brasília, como o plágio de Le Corbusier”, diz o documento localizado pela reportagem no Arquivo Nacional.

A acusação dos militares de que Niemeyer teria copiado trabalhos do colega suíço é apenas mencionada no ofício, que não traz detalhes sobre o caso. Mas o EM apurou que o trecho é referência a uma notícia propalada à época pelo coronel Miguel Pereira Manso Neto, que foi assessor do governo Médici. Segundo amigos de Niemeyer e de acordo com o próprio arquiteto, o militar reuniu croquis e fotos para tentar provar que Oscar plagiava Le Corbusier. Ele dizia que a Igrejinha da Asa Sul seria “uma cópia” de um templo projetado pelo suíço para a cidade indiana de Chandigarh.

Niemeyer se lembra do caso com palavras cheias de revolta. “A indignidade atinge limites inimagináveis quando o coronel Manso Neto arranja um croqui com o qual pretende provar que copio Le Corbusier. O plano prossegue e, na prefeitura, cópias são distribuídas aos ministros e pessoas importantes”, relembra Oscar Niemeyer em seu livro de memórias Curvas do tempo. O arquiteto Carlos Magalhães, amigo, ex-genro e representante do escritório de Niemeyer em Brasília, diz que a acusação de plágio difundida por militares foi um dos episódios que mais o indispuseram com a ditadura. “O que existia era uma relação de mestre e aluno. Le Corbusier era uma inspiração. Mas é claro que não houve plágio”, comenta Magalhães.

VIGÍLIA – Niemeyer prestou depoimentos à polícia durante a ditadura, mas jamais sofreu violência. Nos anos 1960, ele já era um profissional de grande renome internacional, o que garantia certa liberdade. Mas as suas posições políticas também lhe privaram de alguns trabalhos. Em 1969, os militares abriram inquérito policial para identificar “os responsáveis pelas agitações comuno-estudantis ocorridas na Universidade de Brasília em março de 1968”. O documento está no Arquivo Nacional . O nome de Niemeyer é citado várias vezes. O inquérito diz que ele era “um dos influenciadores de fora para dentro da UnB” e que Oscar e outros membros da Associação dos Arquitetos de Brasília “colaboraram, sobretudo, com a FAU (Faculdade de Arquitetura), que é órgão subversivo”.

As amizades de Niemeyer também eram monitoradas. Telegrama de Luiz Carlos Prestes enviado em abril de 1960, na época da inauguração de Brasília, foi encontrado pela polícia em 1964 e passou a ser considerado como uma prova da “atividade subversiva” do arquiteto. O bilhete está no Arquivo Nacional, anexado a um ofício que detalhava os passos de Oscar.

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